quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A euforia dos sentidos

A vitrola acomodada sobre os lençóis
Juntamente com uma lâmpada de mercúrio aceza
Agora ecoa um som quasímodo de tamanha beleza
Uma beleza não-visual fascinante
Timbres roucos, batidas dançantes, agudos faiscantes
Gritos visuais agora me tomam a mente
O que se ouve já não é mais o que se sente
O que se imagina é o que agora se pressente
Letras gritantes, mensagens fluorescentes
Nada mais disso é moda entre os adolescentes
Sentimentos sem sentidos;
Vozes rugem gravemente aos seus ouvidos
Embora agora escute em alta dosagens
Entende pouco e sentimentos deram lugar á viagens
Tudo agora é misturado; papel amassado, um rabisco rosa choque envernizado
Exposão de sentimentos: felicidade e agonia em todos os estados;
Agora são pontos ligados; timbres intercalados
Virando tudo apenas mensagem subliminar
Como sentir o ápice do calor sem soar
Furacão e erupção de cor;
Indefinidamente se é ódio ou amor
Já que o sentimento que predomina é a dor.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Somebody called me on the phone
they said hey, is Dee Dee home
do you wanna take a walk
do ya wanna go and cop, do ya wanna go get some chinese rocks?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Amo a recordação daqueles tempos nus
Quando Febo esculpia as estátuas na luz.
Ligeiros, Macho e fêmea, fiéis ao som da lira,
Ali brincavam sem angústia e sem mentira,
E, sob o meigo céu que lhes dourava a espinha,
Exibiam a origem de uma nobre linha.
Cibele , então fecunda em frutos generosos,
Nos filhos seus não via encargos onerosos:
Qual loba fértil em anônimas ternuras,
Aleitava o universo com as tetas duras.
Robusto e esbelto, tinha o homem por sua lei
Gabar-se das belezas que o sagravam rei,
Sementes puras e ainda virgens de feridas,
Cuja macia tez convidava às mordidas!

Quando se empenha o Poeta em conceber agora
Essas grandezas raras que ardiam outrora,
No palco em que a nudez humana luz sem brio
Sente ele n'alma um tenebroso calafrio
Ante esse horrendo quadro de bestiais ultrajes.
Ó quanto monstro a deplorar os próprios trajes!
Ó troncos cômicos, figuras de espantalhos!
Ó corpos magros, flácidos, inflados, falhos,
Que o deus utilitário, frio e sem cansaço,
Desde a infância cingiu em suas gases de aço!
E vós, mulheres, mais seráficas que os círios,
Que a orgia ceva e rói, vós, virgens como lírios,
Que herdaram de Eva o vício da perpetuidade
E todos os horrores da fecundidade!

Possuímos, é verdade, impérios corrompidos,
Com velhos povos de esplendores esquecidos:
Semblantes roídos pelos cancros da emoção,
E por assim dizer belezas de evasão;
Tais inventos, porém, das musas mais tardias
Jamais impedirão que as gerações doentias
Rendam à juventude uma homenagem grave
- À juventude, de ar singelo e fronte suave,
De olhar translúcido como água de corrente,
E que se entorna sobre tudo, negligente,
Tal qual o azul do céu, os pássaros e as flores,
Seus perfumes, seus cantos, seus doces calores.

Baudelaire.

A ver-nos no inverno...

No inverno, iremos num trenzinho cor-de-rosa,
De almofadas azuis.
Só para nós. Um ninho ébrio de beijos pousa
Nos fofos que possuis.

Os olhos fecharás, à noite, na vidraça,
Para não veres as caretas
Das sombras, esse esgar de monstros-populaça
De negros lobos e capetas.

Elogo sentirás que tua face arranha...
Um beijo pequenino, igual a louca aranha,
A correr no pescoço...

E me dirás: "Procura!", inclinando a cabeça:
- E levaremos tempo a encontrar a travêssa
Que viaja um colosso...

Arthur Rimbaud

sábado, 7 de novembro de 2009

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Luís de Camões.

Escolhas.

É a minha carne que rasga quando você me toca, é a minha pele que queima quando eu te toco, o meu escuro é você quem faz, quando se afasta some tudo, a vista cega, perde o calor... O brilho, a cor. Já não vale mais a carne nem a dor. Agora o espírito revigora, sou só alma, resto de uma luz que se apagou. A carne que era quente em suas mãos gela agora no fim de um poço frio, aonde você me atirou e não tirou, onde minha carne virou terra, e meu sangue virou água, e o meu amor que um dia por você desperdicei, assim como a terra e a água que um dia te dei, brota do fundo desse poço sem carinho; e agora sigo um novo caminho... Trilho cego, sem carne, sem sangue, sem calor. Esse caminho que você me deu chamado amor...